Há alguns anos, talvez uma ou duas décadas, a TV Cultura era uma referência. Sua programação de qualidade era comemorada por ricos e pobres. A emissora lançou muita gente boa, inovou e sempre atendeu às exigências de quem precisa prestar contas do dinheiro público que a sustenta.
Essa, porém, parece ser uma página virada na história da TV Cultura. Há tempos a emissora perdeu completamente o rumo. Não tem mais os programas infantis que a caracterizaram, não inova, não se moderniza, não tem mais nenhuma referência.
A crise de identidade parece dar, mais uma vez, lugar a outra, política. Secretário de Relações Institucionais (?!) do governo Serra, José Henrique dos Reis Lobo, que também despacha na sala da presiência municipal do PSDB, faz duras críticas à gestão de Paulo Markum na TV Cultura. Reportagem de abertura do caderno Ilustrada de hoje mostra um Lobo raivoso.
Segundo o secretário, os programas entram e saem do ar na emissora por mero palpite dos responsáveis pela programação. Ele considera que a Cultura não tem nenhum compromisso com a audiência, que tem alcançado uma média de 1,4 ponto no Ibope, o equivalente a 50 mil domicílios. Para Lobo, esse baixo índice é reflexo da péssima programação.
O secretário tem razão. Não que a TV Cultura tenha de correr atrás de audiência, pois ela deve se pautar por uma programação de qualidade. Mas deve se preocupar com o fato de o telespectador não estar lhe dando a menor bola. O tesouro paulista responde por 42% do orçamento da TV. Ou seja, em última instância, todo telespectador é um pequeno patrocinador da emissora.
A destinação de recursos públicos não faz do governo de plantão dono da TV Cultura, mantida pela Fundação Padre Anchieta. Quem repassa o dinheiro para a emissora é o Estado, e não os governos. E não raro, estes sempre se veem no direito de interferir na TV, nomear seu presidente, pedir favores e empregar correlegionários. Está errado.
Autonomia e responsabilidade
O ideal é que haja uma lei estadual que estabeleça a destinação de recursos do Estado para a TV Cultura, para que não se fique na dependência da boa vontade do governo de plantão - à época do governador Geraldo Alckmin, a Fundação Padre Anchieta viveu à míngua, pois havia forte pressão do Palácio dos Bandeirantes pela troca de comando na emissora.
Como contrapartida, a Cultura precisa estabelecer a profissionalização. O contribuinte tem o direito de pleitear que a emissora seja dirigida como empresa, sempre com o olhar voltado para a valorização da cultura e com preocupações educacionais, mas sem perder de perspectiva a responsabilidade com os recursos públicos. Precisa prestar contas, ter metas, ser aprovada pelos telespectador. Da mesma forma, o Conselho Curador deve ser revirado, tirar o cheiro de naftalina e trazer pessoas que possam reinventá-lo.
A TV pública também precisa se abrir a novos talentos, deixar-se levar pela renovação. A impressão que se tem é de que a panela em que se transformou seu quadro de funcionários abrigo um bando de acomodados. E a julgar pela audiência e pela qualidade dos programas, um bando de acomodados com o fracasso.
terça-feira, 17 de março de 2009
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Um comentário:
Brilhante.
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