sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Ditainfeliz

O editorial da Folha defendendo a ditadura continua rendendo. Tudo indica que o caso já se transformou num passivo de imagem para o jornal. Os pedidos de cancelamento de assinatura são muitos. E corre na internet um abaixo-assinado de repúdio ao jornal e solidariedade a Fabio Konder Comparato e Maria Vitória Benevides.

Talvez por isso a Folha tenha costurado algumas ações para tentar acabar com o caso e contornar a situação. No dia 24, fez publicar artigo, no espaço de opinião, de Fernando de Barros e Silva com panos quentes e críticas ao termo usado no editorial. Dois dias depois, contou com nova carta de Comparato e Benevides, ratificando a posição inicial de defesa dos direitos humanos - desta vez, sem tréplica.

Apesar de ter sido publicado numa terça-feira de carnaval, com baixo índice de leitura, portanto, o artigo de Barros e Silva cumpriu o papel político de tentar apaziguar as coisas. O texto estava todo cheio de cuidados. O lead meio que pedia desculpas: "Certamente, não é a primeira vez que um colunista da casa diverge de uma posição expressa pelo jornal em editorial." Pronto, já estabeleceu a idéia de que a Folha é plural.

"O mundo mudou um bocado, mas "ditabranda" é demais", continuou o articulista. Foi enfático e cumpriu o papel de defender os leitores injuriados com as posições anteriores do jornal. Já fez muito mais do que o ombudsman (?!), que no domingo cumpriu um papelão.

Aparentemente contratado por falta de opção, depois que seu antecessor pediu o boné e relatou as pressões que a direção da Folha vinha exercendo, Carlos Eduardo tem sido o pior ombudsman que o jornal já teve. Parece até ter assumido o posto com a missão de acabar com a figuração.

Na coluna do domingo, dia 22, o caso nem foi o tema principal. Muito longe disso. Se limitou a mencioná-lo de passagem, para ninguém dizer que não o fez. A seguir, a reprodução de parte do que escreveu.

"O ombudsman se atém aos aspectos técnicos, factuais, comprováveis, verificáveis. Opinião é como religião, time de futebol, convicção ideológica: cada um tem a sua e nenhuma é melhor que outra. Mas, talvez porque, como ensinava Spencer, a opinião é determinada em última análise pelos sentimentos, não pelo intelecto, ela mobiliza manifestação de muitos leitores. Esta semana, duas motivaram pelo menos 115 mensagens. Sem entrar no seu mérito opinativo, vou tratar de ambas. Um post de blog do Folha Online trazia no título as palavras vadias e vagabundas acima de foto em que apareciam Marta Suplicy e Dilma Rousseff. Pareceu-me uma insinuação de mau gosto e insultuosa. Um editorial com referência ao regime militar brasileiro provocou cartas publicadas no Painel do Leitor. Resposta da Redação a duas delas na sexta foge do padrão de cordialidade que julgo essencial o jornal manter com seus leitores."

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

"Ditabranda" revela perfil da Folha

Na semana passada, em editorial sobre o plebiscito que concede a Hugo Chávez a chance de se perpetuar no poder na Venezuela, a Falha de S. Paulo classificou o regime militar brasileiro de "ditabranda". A "piada" sem graça, de muito mau gosto, motivou reações de leitores e levou o jornal a entornar o caldo.

Dois dias depois do espisódio, publicou carta assinada pelo advogado Fábio Konder Comparato e pela historiadora Maria Vitória Benevides classificando de absurda a nomenclatura utilizada no editorial. Para eles, que enfrentaram de frente a truculência assassina dos militares, seria o mesmo que classificar a escravidão brasileira de "doce", dada a relação íntima entre casagrande e senzala.

O pior estava por vir. Em tréplica, a Folha se diz aberta a publicar as críticas de leitores. Quanto aos professores Comparato e Benevides, "figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua 'indignação' é obviamente cínica e mentirosa".

A resposta estapafúrdia, grosseira e ignorante tem a cara de Otávio Frias Filho, figura mal-humorada, triste e infeliz. Se irritou por não ter lido o editorial e ter dado no que deu e resolveu descascar pra cima de duas figuras ilustres. Como se diz no jargão popular, quis crescer pra cima dos intelectuais, ele que tanto gostaria de ser um.

Isso porque os professores criticaram o termo usado em editorial. Imagine se tivessem dito alguma coisa sobre a utilização de carros de entrega de jornal, nos anos da ditadura, para levar os cadáveres produzidos pelos militares. A truculência da Folha justifica sua identificação com o regime das botas e fuzis.

Não é a primeira vez que a Folha, ou um dos seus, reage de forma tão estúpida. Recentemente, Clóvis Rossi praticamente chamou um leitor, em e-mail de resposta, de "imbecil" por tê-lo questionado. O pessoal do jornal está ainda mais nervoso. Talvez porque esteja vendo que a eleição não será a barbada pró-Serra que esperava. Ou porque há questionamentos crescentes, coforme revelavam pesquisas, da qualidade do trabalho desenvolvido pelo jornal.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Por que PM nos estádios?

O jogo entre São Paulo e Corinthians, no domingo (15), quase se transformou em carnificina. Mas o pior é que até crianças que acompanham o noticiário esportivo sabiam que algum confronto aconteceria naquele dia. A decisão do Tricolor, de reservar apenas 10% das aquibancas à torcida "visitante" irritou os corintianos. O clima estava tenso ao longo de toda a semana que antecedeu a partida. Portanto, faltou prevenção de todos os envolvidos.

Somente hoje os jornais revelam que o São Paulo mandou fazer muros nos corredores de acesso à arquibancada, afunilando-o à metade. E sem autorização do Contru. A obra serviu para agravar as consequências do conflito entre a torcida "visitante" e a Polícia Militar ao final da partida.

Muito se tem falado sobre o caso. As acusações mútuas entre os dois clubes não ajudam em nada e revelam que nenhum dos dois quer encontrar uma solução. Preferem alimentar a rivalidade a revelar um ambiente mais atraente para a torcida que quer ir ao estádio em paz.

Muito se tem falado também sobre os desarranjos no mundo do futebol, com dirigentes despreparados, denúncias de desvio de recursos, uma lei que não favorece a manutenção de bons jogadores no País. Enfim, erros não faltam, e ficaríamos meses aqui discutindo-os.

Tudo isso contribui para que os ânimos estejam mais acirrados nos clássicos, não só em São Paulo, mas em todo o País. No domingo, um torcedor do Atlético foi assassinado quando ia ao Mineirão para assistir ao clássico com o Cruzeiro.

A questão da segurança pública e a violência desenfreada no País são outros pontos que só ajudam a afastar os pacíficos dos estádios.

Por tudo isso, é preciso colocar o dedo na ferida: por que a PM deve estar dentro do estádio? Por que o Estado tem de arcar com essa responsabilidade? Por que o meu, o seu, o nosso dinheirinho tem de financiar essa estrutura de segurança dentro dos estádios?

Como qualquer outro evento privado, os jogos deveriam contar com segurança contratada pelo organizador. A PM se limitaria à parte externa, as ruas, como é sua atribuiçã. Dentro de um estádio, privado, não faz sentido ter policial militar, que além do mais está cansado de provar não ser capacitado para tratar disso.

A partir do momento que os dirigentes assumam, com contratação de terceiros ou não, a responsabilidade pela segurança dentro dos estádios, serão mais prudentes nas declarações e nos atos, serão mais zelosos e cuidadosos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A fraude com os veículos

Pouco ou nada se tem falado sobre a pomposa vistoria veicular, criada pelo governo do PFL em São Paulo para tentar inibir a fábrica de poluição existente nos carros que rodam pela cidade. Mas atenção para a primeira piada: somente os carros novos devem ser fiscalizados! A segunda: ganha um doce quem conseguir se cadastrar para a vistoria pelo site disponibilizado pelas "autoridades".

O blog do Motta observa que em um mês o "bafômetro de carros" reprovou menos de 5% dos veículos. Desse jeito, Eduardo Jorge corre o risco de seguir os mesmos passos de Fábio Feldman, que depois de criar o rodízio em dia integral, em toda a região metropolitana de São Paulo, nunca mais se elegeu.

Reproduzindo Nassif

Vale a pena reproduzir o blog do jornalista Luis Nassif, postado no final de semana:

"A brincadeira da aliança neocon, de explorar a crise para enfraquecer o governo, esbarrou em uma dura realidade de mercado: as receitas publicitárias caíram de 30% a 40% em janeiro. E prometem repetir o desempenho em fevereiro.

Deram um tiro no próprio pé, como cansei de alertar em dezembro. Primeiro, como a crise é global não conseguiram colar sua responsabilidade no Lula. Segundo, ao espalhar o medo da crise pelo País, aumentaram os receios dos empresários, que pisaram mais forte no freio. E os primeiros cortes são na publicidade.

Não fosse a enxurrada de verba publicitária injetada pelo governo de São Paulo no mercado, a situação teria sido pior.

Agora, é um tal de buscar pontos positivos na crise que dá até medo. Ontem, o Jornal Nacional ressuscitava a velha franquia e o empreendedorismo brasileiro. Hoje, é a vez da Folha. Aliás, há vários dias que o JN mostra regiões em que a crise não chegou. Ainda não entrou no tema infraestrutura.

Os que brincavam de política com a crise tiveram que se curvar ao poder maior do mercado."

Bandidos soltos

Os juízes do Supremo Tribunal Federal reivindicam um reajuste salarial que os levaria a ganhar pouco mais de R$ 26 mil por mês. Ou seja, mais do dobro do salário do presidente da República, que em tese deveria ser o teto do setor público no País. Além dos vencimentos, cada juiz tem direito a 25 assessores. Isso mesmo: 25 assessores.

No mesmo dia em que o Estadão destacou em manchete o pedido das "autoridades", O Globo revelou, também em manchete, que de fato os juízes merecem o reajuste. Estão trabalhando muito. A última medida é a imediata libertação de cinco presos que, apesar de terem sido condenados por crimes graves, têm o "direito" de recorrer em liberdade. Estupradores, estelionatários, ladrões e apropriadores de renda pública estão em liberdade.

Não se trata de defender o descumprimento da lei ou condenações arbitrárias, mas já faz tempo o STF tem trocado os pés pelas mãos. Primeiro, meteu-se onde não havia sido chamado, em questões políticas de âmbito do Legislativo. Depois, seu presidente, identificado com o PSDB, andou dando recados à oposição sobre como reagir a atos e declarações de integrantes do governo. Agora, concendendo liberdade a bandidos condenados. E para isso querem salários nababescos. Parabéns ao STF!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Tiro no pé no Congresso

O Congresso tem feito de tudo para desmoralizar aqueles que ainda que é possível defender a classe política. É fácil e ao mesmo tempo ardilosa a afirmação de que político é tudo a mesma coisa: corrupto e mal intencionado. A julgar pelo Congresso, porém, cada vez menos essa afirmação é uma falácia. Infelizmente.

É exemplar o caso do deputado do PFL de Minas que ocupou a mídia brasileira nos últimos dias. Ficou famoso seu castelo de R$ 25 milhões, construído no meio do nada, no município de São João de Nepumuceno, na Zona da Mata. Edmar Moreira está na Câmara há anos e nunca havia sido encomodado. Bastou ser eleito vice-presidente e ocupar a Corregedoria da Casa para sua ficha corrida vir a público. Ou seja, enquanto não perturbou seus pares, estava tudo bem. Alcançou status, virou personagem do castelogate.

Bom, Edmar é acusado de diversas falcatruas, tais como apropriação indébita de recursos do INSS - recolheu dos funcionários, mas não repassou ao Instituto -, sonegação fiscal, calote de dívida contraída no Banco do Brasil e até de envolvimento com a tortura na ditarura militar. Diz ter feito fortuna com uma empresa de segurança. Entretanto, alega ter gastado R$ 140 mil com serviços de segurança no ano passado. A Câmara pagou a conta após a apresentação de notas fiscais guardadas a sete chaves na Casa. O dinheiro é o meu, o seu, o nosso, mas ninguém pode ser as tais notas.

Não há Cristo que faça o comando da Câmara revelar ao público as notas fiscais apresentadas pelos deputados. Como diria o âncora, uma vergonha. O País tem o direito de saber o que está pagando. Quando a imprensa descobriu que ministros e outros integrantes do Executivo gastavam dinheiro público com cartão corporativo, foi uma vergonha. Mas ninguém investiga o que ocorre entre parlamentares. Nem eles se investigam.

De acordo com a Folha, numa reunião de líderes ontem, o deputado Ivan Valente (PSOL-SP) propôs a revelação de todas as notas fiscais de gastos liberados a parlamentares. Ficou falando sozinho. Depois de instantes de silêncio, a oposição (PSDB e PPS) resolveu dar tímido apoio. E foi só.

Pouca gente sabe, mas cada parlamentar tem direito a gastar R$ 15 mil por mês, além de salário, verba de gabinete, assessoria parlamentar, passagens aéreas, viagens internacionais a título de representação etc. Nada contra os salários. Todo bom profissional deve ser bem remunerado. A vergonha é o presidente da República ganhar R$ 11 mil e um ministro não passar dos R$ 9 mil mensais. Devem ser bem pagos, pelo trabalho duro e para não caírem em tentação. Mas o Congresso está extrapolando. Está parecendo o Judiciário.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Crise é usada contra Dilma

Alguns analistas internacionais colocam o Brasil como uma exceção no turvilhão da crise financeira global. Não que o País viva uma situação que não exija medidas drásticas, cuidados e bons pratos de canja de galinha. Mas também é certo que o Brasil alcança uma posição até certo ponto privilegiada, na avaliação desses economistas, exatamente por causa dos fundamentos econômicos. Em outras palavras, fez e tem feito a lição de casa.

Esqueceram, entretanto, de avisar a imprensa brasileira. Os jornais tupiniquins, especialmente a Folha, insistem em desenhar um cenário absolutamente sombrio, tenebroso, a caminho das trevas fatais na velocidade da luz. Na edição desta terça-feira, sete manchetes para crise no Brasil - em três delas, na capa e em páginas sequencial no caderno Dinheiro, com a palavra "crise" como se fosse uma ameaça à vida.

A notícia de que dobrou a produção de carros em janeiro é colocada em segundo plano, assim como a ampliação e agilidade para a concessão de capital de giro para exportadores, entre outras medidas.

A idéia é fixar na cabeça do leitor e difundir na sociedade a idéia de que o Brasil está irremediavelmente em crise. Com isso, os jornais acham que será mais fácil emplcar José Serra na Presidência da República. A obstinação de Serra, porém, enfrenta resistências naturais, tais como a recorde aprovação de Lula e seu governo, e o crescimento da intenção de voto em Dilma Rousseff.

Conforme a crise avança no mercado global, cresce a intervenção do Estado, aqui e lá fora. E talvez tenha sido essa a sorte de países emergentes como o Brasil, onde o mercado é mais regulado e evitou-se besteiras do tamanho do subprime. Mas essa presença mais incisiva, como o PAC também é exemplo, carrega a maternidade da ministra. É uma conjuntura que fará a impresa produzir muito mais crise ainda.