Muito se tem falado sobre a tal crise. Pelo que se ouve nas ruas, nos bares e nas praias, todo mundo sabe tudo sobre a crise, que beira o caos econômico. A imprensa vive de ciclos: um dia, a crise vai aterrar as esperanças brasileiras, e no outro, não terá tanto impacto assim. Para a oposição, as consequências do abalo financeiro global sobre a economia brasileira é mais do que prevista, é desejada. A ponto de o presidente Lula afirmar que "tem gente torcendo para a crise arrebentar o Brasil".
A crise existe, é real, tem seus efeitos, mas o que o presidente quer dizer é que suas consequências sobre a atividade econômica brasileira são motivo de discussões com forte contexto político. É mais ou menos assim: quem desenha um cenário turrvo, é da oposição. Mas se alguém aponta indicadores favóráveis, pode ser chamado de governista.
De fato, a discussão é cada vez mais política. Afinal, estão em jogo as eleições de 2010, para a sucessão de Lula e para governador dos Estados. Até o final do ano passado, o grau de popularidade do presidente indicava que ele poderia eleger um poste. A crise seria uma chance de a oposição tentar equilibrar o jogo. E o agravante é que o "poste" chamado Dilma Rousseff já não é tão poste assim.
Entre tucanos, com base em pesquisas recentes, a ministra já pode ser considerada "competitiva", conforme revela o Painel da Folha. Com a economia andando, mesmo sem todo o fôlego, ela ganha ainda mais densidade, pois está identificada com as obras do PAC, que para quem não sabe quer dizer Programa de Aceleração do Crescimento. Elementar.
Juventude
Seja como for, o Brasil caminha para um ano de algumas incertezas e muitas batalhas. Com maiores ou menores tropeços, vai chegar a 2010 mais maduro, do ponto de vista econômico. E terá vencido mais uma etapa na busca pelo amadurecimento político.
Somos um País jovem. A rigor, nascemos quando D. João desembarcou com sua côrte, em 1808, e passou a se interessar em construir um país. Até então, Portugal só queria saber do que tirava dessas terras.
Com mais rigor ainda, pode-se dizer que o Brasil surgiu, de fato, em 1822, com a proclamação da Independência. Nova dose de rigor e chegamos à conclusão de que apenas em 1889, com a proclamação da República, começa a vida com a alma brasileira.
Nosso primeiro presidente era militar, aceitou o cargo para fazer uma desfeita a D. João, por ter sido colocado em segundo plano mesmo se considerando um herói na Guerra do Paraguai. Depois dele, outro militar. O século passado começou com o rodízio imposto pela elite: um mineiro e um paulista se revezavam no poder. Tempos do voto de cabresto.
Pode-se dizer que o povo ainda não chegara à identificação de uma nação verdadeiramente livre, democrática, com os Poderes representados pelos extratos sociais. Até que Getúlio Vargas, em 1930, rompeu essa lógica e foi logo instalando uma ditadura para "colocar ordem na casa". Verificam-se alguns avanços sociais, principalmente para as classes trabalhadoras, mas não deixa de ser uma ditadura. Ditadura é ditadura.
Quinze anos depois, com a queda do nazi-fascismo na Europa, Getúlio perde força e vê o general Eurico Gaspar Dutra ser eleito presidente. Getúlio voltaria, quatro anos depois, nos braços do povo, para não concluir o mandato, amputado com um tiro no peito. Os ciclos políticos ficariam ainda mais confusos, com interrupções e ameaças de novo golpe, finalmente concretizado em 1964. O País interrompe um processo de avanços, de consolidação das instituições, da democria. Iria viver 20 anos na mais profunda penumbra.
Em resumo, o Brasil vive uma democracia em sua (relativa) plenitude há muito pouco tempo. Fernando Henrique Cardoso foi o segundo presidente eleito pelo voto direto, em sufrágio universal, a passar o cargo para seu sucessor - o primeiro foi Juscelino, mas Jânio, mal-agadecido, renunciaria sete meses depois. Lula será o terceiro. É muito pouco.
Considerando-se tudo isso, o Brasil é jovem, mas um jovem promissor, que já coloca as manguinhas de fora. Entre as dez maiores nações econômicas do mundo, é a única que não tem uma cultura milenar, exceção feita aos EUA, que tiveram outra colonização, mas essa é outra história, que merece um capítulo à parte.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
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