segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Serra e a crise

Há uma clara tentativa da imprensa, especialmente da Folha, de impregnar o ambiente e fixar na mente do leitor a existência de uma crise financeira grave no País. Como já foi dito diversas vezes por analistas, economistas e políticos, e publicado pelos próprios jornais, o crescimento da crise é a única chance de a oposição fazer ruir a alta popularidade do presidente Lula. Até agora, do jeito que as coisas estão, há o risco de a oposição ver Lula eleger o poste em 2010.

Nesta segunda-feira, a Folha publica carta do leitor Luís Cláudio de Oliveira que merece ser reproduzida: "Compreendo que para um produto como a Folha, impresso em papel importado e dependente de anunciantes, a crise seja tema diário importantíssimo. Creio, porém, que a preocupação interna vem extrapolando no noticiário. Seguem dois exemplos, entre muitos. Na abertura do Rali Dacar, a crise não passou nem perto. Mesmo assim, estava no título do caderno Esportes em 3/1: 'Imune à crise, Rali Dacar estreia na América do Sul'. Ontem, na abertura do Fashion Week, de novo, nem sinal da crise. Mas a Ilustrada não titubeou, e a não-notícia voltou ao título: 'É a crise. Sorria'. Se, contrariando os princípios do bom jornalismo, a crise é o ator principal de eventos esportivos e culturais mesmo quando ela não deu as caras, que manchetes esperar? Talvez algo como 'Copa São Paulo tem recorde de gols apesar da crise' ou 'Alheia à crise, Flora atira em Donatela em A Favorita'."

Na primeira quinzena de janeiro do ano passado, período de vacas gordas, as montadoras instaladas no Brasil venderam 91 mil veículos. No mesmo período deste ano, no auge da crise, como alerta a imprensa, as mesmas montadoras venderam 88 mil veículos. A Vale, maior minerado de ferro do mundo, havia colocado mais de cinco mil funcionários em férias coletivas, pois anunciava queda de demanda. Suspendeu as férias no meio. Os dois assuntos foram escondidos pelos jornais.

Apostar na crise é dar um tiro no pé. Com o ambiente social e econômico convicto de sua existência grave, todo mundo vai colocar o pé no freio. Talvez Lula sinta os efeitos, perca parte de sua popularidade. Mas até 2010, a Folha e seus congêneres terão dificuldades de sobreviver para manchetar: "Serra é o novo presidente do Brasil. Urrra!"

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Leitor não é bobo

O noticiário econômico no Brasil parece desconexo da realidade e desorientado. Os jornais não chegam a uma conclusão se a economia brasileira está bem ou sofre de alguma anomalia comprometidora. Não há dúvidas de que o mundo vive uma situação crítica, mas até que ponto a turbulência arrasta a saúde das finanças nacionais é uma interrogação que a mídia não decifra. Na dúvida, porém, prefere apostar na crise.

Há indicadores tranquilizadores e convicção de que algumas empresas se aproveitam do ambiente para enxugar custos e ignorar o brutal lucro acumulado em 2008. O que prevalece é a vontade de falar mal da conjuntura para ver se compromete a imagem do governo.

Isso fica evidente no noticiário desta terça-feira. O destaque das seções de economia são as manifestações do presidente Lula, as primeiras depois de 15 dias. Ele reconhece que o primeiro trimestre pode ter mais impactos da crise sobre a economia brasileira do que o observado até agora. Mas antecipa que não faltará dinheiro para investimentos públicos. Além disso, promete incentivar o setor privado a fazer o mesmo. A empresários, em São Paulo, disse que o governo deverá anunciar novas medidas de prevenção contra os efeitos da crise global ainda neste mês.

A notícia de que o Brasil, porém, deve ser um dos países menos afetados pela crise não ganha grande destaque nas edições dos jornais. Segundo estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil permanece como a única entre as economias mundiais que continua com um cenário positivo.

"Como ocorre desde setembro, quando a crise mundial se agravou, o Brasil é o único país com cenário positivo, mas sua pontuação recuou pelo quarto mês consecutivo", conforme relata a Folha. Mas o título da matéria do jornal é surreal: "Brasil está próximo de desaceleração, diz OCDE". No texto, acrescenta: "... o organismo [OCDE] considera que o Brasil tem um cenário de inflexão, ou seja, continua a crescer, mas a curva aponta para uma perda de ritmo".

A Folha força a barra, claramente. Tanto assim que a notícia está escondida em pé de página no caderno Dinheiro. Se o jornal acreditasse realmente no título que publicou, o teria editado em manchete de página. Todos os outros jornais nacionais (Estadão, Valor e O Globo) registram objetivamente o bom resultado alcançado pelo País até agora.

A má vontade da Folha com o governo Lula é histórica. Assim como a boa vontade com José Serra.

Propaganda de Serra
Na segunda-feira, o articulista Fernando Rodrigues escreve na página 2 sobre os gastos com publicidade feitos pelos governadores Aécio Neves e José Serra, de olho em 2010. Revela que a Sabesp gastou R$ 28,3 milhões em 2008, até novembro. Segundo ele, soma quase equivalente aos R$ 34,7 milhões gastos pelo governo de Minas. Acrescenta que a Sabesp fez publicar anúncios em veículos de comunicação de Manaus, Teresina e Salvador, entre outras cidades. "A Sabesp serrista parece ter planos expansionistas de fazer inveja a Solano López", comenta o articulista.

Cabem as perguntas: é normal uma estatal como a Sabesp, fornecedora de água e de serviços de tratamento de esgoto, divulgar suas realizações em outros Estados? E com recursos públicos? Isso não deveria ser ponto de "denúncia" para ser levada para a pauta do jornal, para as devidas apurações? Se fosse uma estatal federal, o fato também seria ignorado pela Folha?

É importante acrescentar que a Sabesp tem uma gestão monetarista. Pouco fala sobre a importância da economia de água, o que levaria a contenção de gastos por parte do consumidor e à queda de faturamento da companhia. Lamentável! Uma visão obtusa, pequena, mas que fortalece o caixa da estatal para fazer campanha para o governador.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Lula e a imprensa

O presidente Lula deu uma rara entrevista exclusiva - as coletivas e declarações a jornalistas têm sido mais comuns desde o terceiro ano de mandato. Desta vez, à revista Piauí que está nas bancas. Entre outras coisas, o presidente disse que não está nem aí para a imprensa brasileira. A meia dúzia que controla a mídia no País parece não ter gostado. O noticiário sobre a entrevista ainda é factual, mas já deixa transparecer uma pitada de crítica. Falta pouco para dizerem que Lula prova ser um "ignorante".

Segundo Lula disse à revista, a imprensa brasileira "tem um comportamento histórico em relação a mim". E recorre à ironia ao revelar que não lê jornais nem revistas: "Tenho problema de azia".

O blog de Ricardo Kotscho aborda a questão hoje. Vale a pena uma leitura. Próximo de Lula há décadas e seu ex-assessor de imprensa no Planalto, o jornalista confirma que o presidente de fato não lê os jornais, com exceção rara às páginas de esportes. Mas nem por isso deixa de ser extremamente bem informado. Lula dispensa intermediários e vai direto à fonte.

Kotscho confirma, também, que o presidente não se pauta pelo noticiário. Lula está certo, mas poderia estar ainda melhor caso levasse mais a sério a necessidade de interagir com a imprensa. Todos concordam que a mídia brasileira é partidária, por mais que os empresários do setor e seus asseclas tentem negar. Mas os veículos acabam falando com alguma parcela da sociedade. Cada vez menos, e concentradamente nas elites do Rio e São Paulo, também é verdade.

Ao que parece, e Kotscho concorda, a relação do presidente com a imprensa melhorou, especialmente depois que Franklin Martins assumiu a área de comunicação do governo. É profissional, do ramo e com bom trânsito entre os coleguinhas. E rompeu com uma lógica louca que prevalecia na Secom: deixar a "imprensa burguesa" falar o que bem entender.

Não se trata de querer mudar a imprensa. Longe disso, pois os jornais refletem a opinião conservadora e preconceituosa da elite brasileira. Porém, em respeito ao leitor, é sempre conveniente que o governo se faça ouvir. Deixar que as versões se irradiem ao gosto dos adversários parece uma tática perigosa demais. Em caso de algum tropeço, não há popularidade presidencial que resista à onda de versões. O caso do mensalão está aí para provar.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Dilma e a crise

Muito se tem falado sobre a tal crise. Pelo que se ouve nas ruas, nos bares e nas praias, todo mundo sabe tudo sobre a crise, que beira o caos econômico. A imprensa vive de ciclos: um dia, a crise vai aterrar as esperanças brasileiras, e no outro, não terá tanto impacto assim. Para a oposição, as consequências do abalo financeiro global sobre a economia brasileira é mais do que prevista, é desejada. A ponto de o presidente Lula afirmar que "tem gente torcendo para a crise arrebentar o Brasil".

A crise existe, é real, tem seus efeitos, mas o que o presidente quer dizer é que suas consequências sobre a atividade econômica brasileira são motivo de discussões com forte contexto político. É mais ou menos assim: quem desenha um cenário turrvo, é da oposição. Mas se alguém aponta indicadores favóráveis, pode ser chamado de governista.

De fato, a discussão é cada vez mais política. Afinal, estão em jogo as eleições de 2010, para a sucessão de Lula e para governador dos Estados. Até o final do ano passado, o grau de popularidade do presidente indicava que ele poderia eleger um poste. A crise seria uma chance de a oposição tentar equilibrar o jogo. E o agravante é que o "poste" chamado Dilma Rousseff já não é tão poste assim.

Entre tucanos, com base em pesquisas recentes, a ministra já pode ser considerada "competitiva", conforme revela o Painel da Folha. Com a economia andando, mesmo sem todo o fôlego, ela ganha ainda mais densidade, pois está identificada com as obras do PAC, que para quem não sabe quer dizer Programa de Aceleração do Crescimento. Elementar.

Juventude
Seja como for, o Brasil caminha para um ano de algumas incertezas e muitas batalhas. Com maiores ou menores tropeços, vai chegar a 2010 mais maduro, do ponto de vista econômico. E terá vencido mais uma etapa na busca pelo amadurecimento político.

Somos um País jovem. A rigor, nascemos quando D. João desembarcou com sua côrte, em 1808, e passou a se interessar em construir um país. Até então, Portugal só queria saber do que tirava dessas terras.

Com mais rigor ainda, pode-se dizer que o Brasil surgiu, de fato, em 1822, com a proclamação da Independência. Nova dose de rigor e chegamos à conclusão de que apenas em 1889, com a proclamação da República, começa a vida com a alma brasileira.

Nosso primeiro presidente era militar, aceitou o cargo para fazer uma desfeita a D. João, por ter sido colocado em segundo plano mesmo se considerando um herói na Guerra do Paraguai. Depois dele, outro militar. O século passado começou com o rodízio imposto pela elite: um mineiro e um paulista se revezavam no poder. Tempos do voto de cabresto.

Pode-se dizer que o povo ainda não chegara à identificação de uma nação verdadeiramente livre, democrática, com os Poderes representados pelos extratos sociais. Até que Getúlio Vargas, em 1930, rompeu essa lógica e foi logo instalando uma ditadura para "colocar ordem na casa". Verificam-se alguns avanços sociais, principalmente para as classes trabalhadoras, mas não deixa de ser uma ditadura. Ditadura é ditadura.

Quinze anos depois, com a queda do nazi-fascismo na Europa, Getúlio perde força e vê o general Eurico Gaspar Dutra ser eleito presidente. Getúlio voltaria, quatro anos depois, nos braços do povo, para não concluir o mandato, amputado com um tiro no peito. Os ciclos políticos ficariam ainda mais confusos, com interrupções e ameaças de novo golpe, finalmente concretizado em 1964. O País interrompe um processo de avanços, de consolidação das instituições, da democria. Iria viver 20 anos na mais profunda penumbra.

Em resumo, o Brasil vive uma democracia em sua (relativa) plenitude há muito pouco tempo. Fernando Henrique Cardoso foi o segundo presidente eleito pelo voto direto, em sufrágio universal, a passar o cargo para seu sucessor - o primeiro foi Juscelino, mas Jânio, mal-agadecido, renunciaria sete meses depois. Lula será o terceiro. É muito pouco.

Considerando-se tudo isso, o Brasil é jovem, mas um jovem promissor, que já coloca as manguinhas de fora. Entre as dez maiores nações econômicas do mundo, é a única que não tem uma cultura milenar, exceção feita aos EUA, que tiveram outra colonização, mas essa é outra história, que merece um capítulo à parte.