Nesta segunda-feira, a Folha publica carta do leitor Luís Cláudio de Oliveira que merece ser reproduzida: "Compreendo que para um produto como a Folha, impresso em papel importado e dependente de anunciantes, a crise seja tema diário importantíssimo. Creio, porém, que a preocupação interna vem extrapolando no noticiário. Seguem dois exemplos, entre muitos. Na abertura do Rali Dacar, a crise não passou nem perto. Mesmo assim, estava no título do caderno Esportes em 3/1: 'Imune à crise, Rali Dacar estreia na América do Sul'. Ontem, na abertura do Fashion Week, de novo, nem sinal da crise. Mas a Ilustrada não titubeou, e a não-notícia voltou ao título: 'É a crise. Sorria'. Se, contrariando os princípios do bom jornalismo, a crise é o ator principal de eventos esportivos e culturais mesmo quando ela não deu as caras, que manchetes esperar? Talvez algo como 'Copa São Paulo tem recorde de gols apesar da crise' ou 'Alheia à crise, Flora atira em Donatela em A Favorita'."
Na primeira quinzena de janeiro do ano passado, período de vacas gordas, as montadoras instaladas no Brasil venderam 91 mil veículos. No mesmo período deste ano, no auge da crise, como alerta a imprensa, as mesmas montadoras venderam 88 mil veículos. A Vale, maior minerado de ferro do mundo, havia colocado mais de cinco mil funcionários em férias coletivas, pois anunciava queda de demanda. Suspendeu as férias no meio. Os dois assuntos foram escondidos pelos jornais.
Apostar na crise é dar um tiro no pé. Com o ambiente social e econômico convicto de sua existência grave, todo mundo vai colocar o pé no freio. Talvez Lula sinta os efeitos, perca parte de sua popularidade. Mas até 2010, a Folha e seus congêneres terão dificuldades de sobreviver para manchetar: "Serra é o novo presidente do Brasil. Urrra!"