Quando criança, Paulinho tinha uma idéia fixa: conhecer o mar. Freqüentava a piscina do clube local quase que diariamente. Nas férias, de manhã e à tarde. Entre um pulo e um mergulho, imaginava que estava numa praia. Quando ia dormir, sonhava que Deus tinha feito um canal entre as montanhas, levando o oceano para ir banhar sua casa. Acordava imaginando que tinha uma praia no portão.
Graças ao milagre econômico, ironicamente feito pelos demônios da ditadura, conseguiu ir para a praia pela primeira vez quando tinha onze anos. A estréia foi meio sem graça. A praia de Caraguatatuba não era a maior maravilha do mundo, tinha um pouco de lodo, ou barro, não sabe bem ao certo, no fundo. As ondas quase não existiam. Mas já era muito para quem sonhara tanto.
No dia seguinte, sim, uma praia de águas claras, areia branca, que ficava ainda mais branca com a espuma das muitas ondas que nela quebravam. Se esbaldou. Foram 15 dias visitando praias, uma mais linda do que a outra. Muitas ondas. Depois das férias, Paulinho ficou dias ouvindo o barulho do mar que teimava em não sair do ouvido.
Foram férias inesquecíveis. Mas apenas as primeiras. Nunca mais Paulinho seria o mesmo. Na primeira oportunidade, poucos anos depois, lá foi ele novamente para a praia, na boléia de um caminhão apanhado de carona na estrada. Uma arte que lhe rendeu alguns castigos, mas que até hoje considera ter valido a pena.
Muitas outras idas à praia, passou a ser um velho amigo e frequentador do mar, sem nunca ter deixado de lado outro sonho, que veio com o amadurecimento de Paulinho: ter sua própria casa na praia.
Tanto fez que conseguiu. Primeiro, uma pequenininha, embora suficiente para aproveitar bastante, contemplar a mata em volta. Logo depois, outra um pouco maior, com terreno para a churrasqueira, um gramado bonito, flores, varanda, rede, cozinha para cozinhar, outra paixão de Paulinho. Tudo perfeito, até que um dia tornou-se vítima de uma das maiores desgraças desses tempos: a violência.
Paulinho ficou muito triste. Não só pelo ocorrido, mas pelo medo da perda de algo intangível: ter de abandonar um sonho que o acompanha por toda sua vida. Trabalhou tanto para isso, sem nunca ter pedido nada para ninguém. Não queria abrir mão do seu direito de ir e vir, de estar onde bem entendesse. Não quer se intimidar. Não quer abrir mão do seu sonho, que faz parte de sua existência tanto quanto seus prazeres e seus sentidos.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
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Um comentário:
... mas tudo fica pequeno diante do mar.
E como diz a música: "Os sonhos não envelhecem". Bj
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